A presente exposição propõe uma abordagem particular à fotografia de paisagem. Sem entrar na possibilidade de uma definição clara do conceito bastará talvez lembrar que na tradição portuguesa a definição prende-se com a construção de uma ideia de país, ideia amplamente explorada a partir dos anos 1930 pelo regime salazarista, especialmente por via da fotografia.

Propõe sim é uma visão da paisagem como uma cena, mais ou menos encenada, que é registada pela fotografia. Este pequeno gesto do dispositivo fotográfico estabelece um registo no tempo (mais precisamente numa fracção ínfima de tempo) de uma particular encenação quer do fotógrafo quer daqueles que modificaram a paisagem.

E aqui entra a ideia do estranho, onde cenas que podemos à partida considerar familiares deixam de o ser. Esta transformação do familiar em estranho tem diversas vias cuja identificação dá-nos uma orientação para aceder aos significados adicionais destes trabalhos.

Esta orientação é-nos dada por diversas vias, desde a ausência da câmara fotográfica, pela presença de um sensor que alarga o espectro visível ao dispositivo, pela afirmação inicial de uma abordagem aparentemente tradicional (ou não) à paisagem, pela presença dos não lugares e o efeito destes no circundante, pela apresentação de corpos tornados estranhos pela tomada de vista, ou ainda pelo mais quotidiano factor presente nas nossas vidas, aquele que nos re-lembra quando menos esperamos o lado extraordinário da nossa existência, o acaso.

Se o acaso nos leva a re-lembrar, ao mesmo tempo urge também a procura de termos de referência plausíveis. Por outras palavras, a paisagem tornada estranha pelo dispositivo fotográfico na sua re-apresentação é uma possibilidade de renovação e aprofundamento da percepção, a possibilidade de estabelecer termos de referência diversos.

A diversidade de abordagens e paisagens aqui apresentadas não se referem à construção da imagem de algum país em particular, referem sim a possibilidade da criação de vários mundos, a possibilidade da existência de sistemas de coordenadas diversos, a interiorizar, a entranha(r) rumo a um alargado sentido crítico, da paisagem que nos rodeia e, em última instância, do próprio dispositivo fotográfico.

Paisagem estranha entranha projectada

Armando Ribeiro, um dos fotógrafos participantes na exposição na Casa das Artes, foi membro fundador do ASA Collective, grupo heterogéneo composto por três fotógrafos com experiências diversas, que tinha por linha condutora comum a ideia de contar histórias através da imagem fotográfica, veículo privilegiado na promoção do pensamento crítico acerca de assuntos contemporâneos de interesse humano global.

Durante uma das suas recentes visitas a Lisboa (o seu último projecto “Depressive Landscapes” foi editado em livro e acaba de ser lançado em Lisboa), Armando propôs-se acrescentar à ideia inicial da exposição o desenvolvimento de um programa de projecções, integrado na ideia geral do projecto, com escolhas e edição da sua responsabilidade. Este conjunto de sete trabalhos fotográficos apresentados em formato de projecção multimédia representa uma extensão virtual dos conceitos basilares da exposição, reforçando o carácter e dimensão global das suas motivações centrais.

Miguel Proença e Armando Ribeiro (projecção)

Junho 2012

CAT